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Tem que ser louco
Poesia, te escrevia:
flor! Conhecendo
que és fezes. Fezes
como qualquer,
(Antiode João Cabral de Melo Neto)
A porta azul do hospício fecha-se. Lá dentro é grito, solidão e dor. O que pode salvar é a poesia. È a brecha da linguagem às avessas. A loucura é a linguagem às avessas. Alguém sabe que a dor psíquica é maior que a dor física? Como transformar a agulha que rasga a carne e que tenta aplacar o delírio em palavra? Não parece haver saída dos muros internos que o destempero cria. A poesia organiza e desorganiza como um jogo. Ela é ordem e desordem. Não basta ser poeta, é preciso ser louco. É preciso tocar na doença e achar a cura. Não basta consumir o mal, há que consumar o mal para chegar no bem.
É na entrelinha que o futuro leitor compreenderá o caminho de quem escreve. De quem se oferece em amor, em despojamento. A escrita é, antes de tudo um ato de amor. Não de soberba, não de vaidade, não de egoísmo. Nela está a experiência de que não somos nada. Somos frágeis seres caminhando sobre o fio da navalha, ínfima poeira perdida no manancial do tempo.
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