Pela tua profissão e sobrenome, muitas pessoas chegaram a achar que a Tom
Bloch não passaria de mais uma banda. Isso chegou a atrapalhar a carreira de
vocês?
O sobrenome ajudou mais do que atrapalhou, sem dúvida. Sempre digo que um
sobrenome como o meu abre muitas portas, mas deixar essas portas abertas é
só comigo. Uma pessoa pode até ver um show nosso, ou comprar nosso CD,
somente para saber o que o filho do Luis Fernando Verissimo faz. Mas te
garanto que ninguém vai voltar a um show, ou recomendar o CD pra alguém, se
não gostar do que ouviu. Ou seja, é um trunfo. Mas um trunfo de curta
duração.
E a publicidade só ajudou. Ter noção de como se produz uma foto, um clip,
uma capa de CD, etc. é uma arma a mais. Já faz um bom tempo que música não é
só o som, mas a postura, a atitude. E isso se passa também com a imagem.
Cresci com a MTV, não sei o que é um artista sem rosto. É tudo uma questão
de usar seus poderes para o bem, se é que você me entende.
Em 1998 quando vocês começaram, a cena da cidade era outra. As bandas
locais começavam a aparecer: vocês, a Bidê. Tu acreditas que hoje é mais
fácil montar uma banda, gravar um CD e se apresentar na noite? Quais bandas
tu destacaria dessa nova onda portoalegrense?
Nos chamavam de Trio Ternura, a Bidê, Tom Bloch e Video Hits. Era engraçado.
Foi um daqueles momentos em que parecia que um "movimento" estava começando,
que essa união ia criar um tsunami gaúcho no rock nacional. Parecia. As três
tiveram bastante destaque na mídia alternativa do Brasil todo. Acho que,
principalmente, por serem bandas com personalidades bastante fortes. Mas ter
personalidade muitas vezes atrapalha. Acho que a grande mídia e as
gravadoras nunca souberam muito bem o que fazer com a gente, onde encaixar.
Tanto que a Video Hits acabou. Uma pena.
A gente conseguiu gravar o nosso CD de forma independente, sem a ajuda ou o
dedo de uma gravadora, por causa da facilidade que a tecnologia "caseira"
trouxe. Naquela época começava a ficar possível conseguir um resultado de
qualidade sem ter grana pra bancar um puta estúdio, por exemplo. Hoje é mais
fácil ainda, já que todo mundo tem um computador em casa mesmo.
Tocar segue sendo difícil pela pura falta de lugar. Ou os lugares são muito
grandes, como o Opinião, ou muito pequenos ou muito sem estrutura. É
realmente um problema.
Das bandas novas, gosto muito de Superguidis e acho que Irmãos Rocha! ainda
tem muito pela frente. O CD que eles acabam de lançar é genial.
Tu és um cara tímido, caseiro, avesso a badalações. Como é essa nova
fase de subir no palco, aparecer na TV e dar entrevistas?
Sou menos tímdo do que pareço. Acho que as pessoas me vêem um pouco
condicionadas pela visão que têm do meu pai - um tímido de verdade. Sou
quieto, isso sim. Mas acho que é mais por preguiça. E tenho essa postura no
palco por opção. Não sou do tipo que grita: "E aí, galera! Vampulá!". Nem
todo vocalista tem que ser um animador de programa de auditório. Estou ali
pra cantar.
E dar entrevistas eu gosto, acho que dá pra notar pelo tamanho das minhas
respostas.
Tu acreditas que a vivência cultural dentro da tua família ajuda na hora
de compor as letras da Tom Bloch? Elas trazem algo de autobiográfico nas
letras?
Sem dúvida. Crescer num ambiente como a minha casa, com livros até nos
banheiros, no mínimo facilita o contato com a literatura. Sempre fui
estimulado a ler, a me interessar por arte em geral, cinema, etc. É aquela
história: Quer escrever? Então lê.
Uma das nossas canções, "Nessa Casa", é baseada em um texto da Virginia Wolf
chamado "The Haunted House", sobre um casal de fantasmas mostrando onde o
amor deles foi mais vivo. Minha Vó leu muitas biografias da Virginia Wolf e
comentava as histórias na mesa do almoço. Pequeno ainda, levei anos pra me
dar conta que as duas não eram velhas amigas.
E na minha casa a arte/literatura sempre pagou as contas. Ou seja, quando eu
avisei que ia pedir demissão da agência para me dedicar à música, não foi um
choque tão grande quanto seria numa família de engenheiros, por exemplo.
E autobiográficas as letras são até quando não são. Tem algumas sobre
relacionamentos teóricos, vivências que eu não tive, mas que passam sempre
pelo filtro das que tive. Outras são pessoais até demais. "O Amor (Zero
Sobrevivente)", pra citar uma, é sobre um período horrível da minha vida,
mas que acabou rendendo uma bela música com a qual muita gente se
identifica. Ainda tenho que agradecer pela inspiração. Ou não.
Que novidades do último trabalho tu podes nos adiantar? Perticipações
especiais, alguma música onde esse lado mais orgânico que tu comentas tenha
ficado ainda mais perceptível?
As novidades são muitas, e boas. Mas aprendi faz pouco a não falar das
coisas antes delas acontecerem. A gente está em processo de pré-produção,
decidindo repertório ainda e vendo como vai ser a logística da coisa.
Não acho que vá ser tão diferente assim do primeiro, no sentido de não ter
muito sentido. A gente gosta de tratar cada música como uma ilha, um pequeno
universo isolado. Depois a gente junta todas e vê no que dá o conjunto.
Algum show em vista?
Enquanto a gente prepara a entrada em estúdio, eu ando me divertindo com um
show solo e ensolarado. Se chama "Baladas Boas" e é todo de canções
americanas dos anos 50 e 60, mas só as versões feitas na época para o
português. Coisas do Elvis que o Robeto Carlos cantava, versões de clássicos
como "Blue Velvet" e "Blue Moon". Quer dizer, "Veludo Azul" e "Lua Azul".
Tudo azul, ingênuo e pra beijar na boca. Todas as quintas de maio no Cult
Bar.
Tom Bloch só depois de gravado o novo CD.
Qual o papel da Cidade Baixa dentro da cultura musical de PoA?
Tomar cerveja sempre é inspirador. Ou seja, é uma musa!
Que lugares mais gosta de ir e por que? Lugares a ver com a Cidade Baixa
em Londres, São Paulo?
Eu podia muito bem ser um turista profissional. Seria a profissão perfeita.
Lugares sempre são diferentes, mas têm em comum as suas Cidades Baixas,
zonas de boemia, de encontro despreocupado. E é nessas zonas que as cidades
se reinventam. O que acabou em museus, certamente começou na mesa de algum
bar.
Adoro um bom restaurante, um hotel confortável. Mas o mais legal sempre é o
que fica um pouco mais à "gauche".
Por exemplo: o lugar onde melhor comi em Barcelona foi no Mercado Público
(La Boqueria), sentado num balcão. Nenhum restaurante 5 estrelas seria
melhor.
Em Paris, museu legal é o "Palais de Tokio", o museu de arte moderna da
cidade de Paris. Tem exposições de grafiteiros, de artistas que nem
começaram ainda, um lugar onde nada se estabeleceu. Trés cool!
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