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A entrega do corpo no discurso de resistência

Uma lista que elencasse as proezas humanas das mais incompreensíveis certamente elevaria o ato de se atirar na frente das balas a um dos três primeiros lugares. Pensando bem, não é sequer humano se atirar na frente dos tiros: humano é sair correndo nessa hora. Essa coragem também não tem nada a ver com instinto animal, porque os bichos se protegem. Coloca-se um gato ou cachorro num lugar estranho e o primeiro impulso será o de se esconder; o segundo, saber por onde fugir, se o esconderijo der errado. Talvez o risco extremo de expor o próprio corpo à violência seja uma forma também extrema de anunciar que a capacidade de resistência acaba de bater no limite.

O filme brasileiro "Cabra-cega", do diretor Toni Venturi, termina com uma cena assim, a de três jovens armados, dois homens e uma mulher, abrindo as portas da sala de casa para enfrentar, no prédio, na rua, o aparato de repressão da ditadura militar. Congelados, os movimentos dos braços e troncos erguidos sugerem um balé. É uma bonita cena final, trata-se de um filme, ficção baseada em fatos vividos por homens e mulheres reais. "Saveiros", a segunda canção da trilha sonora de Fernanda Porto, uma recriação da música de Nelson Motta e Dory Caymmi, indaga justamente: "Quantos partiram de manhã? Quem sabe quantos vão voltar?" As personagens Tiago, Rosa e Pedro, criadas para o roteiro a partir dos depoimentos de 11 ex-guerrilheiros sobreviventes, representam os que se lançaram à luta armada no Brasil sabendo que voltariam vivos por sorteio.

Em cartaz em Porto Alegre por apenas duas semanas, "Cabra-cega" não propõe uma aula sobre a biografia dos presidentes-militares-torturadores nem sobre as distintas linhas de atuação da esquerda brasileira nos anos 60 e 70 do século XX. O filme sugere antes uma aproximação sensorial do público de hoje com a intimidade da vida perigosa dos militantes de antanho: como e por quem eram feridos, como e onde se escondiam nas grandes capitais, com que velocidade eles enlouqueciam antes de voltar à ativa, se voltassem. O período de confinamento do guerrilheiro Tiago, o protagonista acuado num apartamento de classe média-alta em São Paulo, vai sendo preparado na tela por prolongados minutos de silêncio. Precisa ter coragem para iniciar um filme com a ausência do verbo ou de efeitos sonoros. O último prolongado silêncio na TV brasileira, por exemplo, foi com "Os Maias", do diretor Luiz Fernando Carvalho, e a audiência da minissérie despencou desde então.

A loucura e a morte simbólica do ativista enclausurado derivam da quase morte física num passado recente, exibido em tons sépia, quando Tiago é baleado e consegue fugir, enquanto Dora, a mulher capturada, segue para a tortura. São cenas meteóricas, as que expõem a vulnerabilidade do corpo feminino diante de brutamontes armados de eletrochoques, mas são flashes suficientemente fortes, no limite do suportável de assistir. A exemplo da mulher na cadeira de rodas na famosa foto dos companheiros exilados junto de Fernando Gabeira, a militante torturada de "Cabra-cega" condensa a resistência hercúlea dos que entregaram a pele, o rosto e os órgãos internos para não entregar o nome dos companheiros, e por conta desse despreendimento sobre-humano ficaram muito tempo sem poder sentar ou caminhar.

Na outra ponta da solidariedade feminina à guerrilha estão Rosa, contato de Tiago com um militante veterano, e dona Nenê, espanhola exilada no Brasil. A personagem da viúva faz a conexão internacional dos indignados contra os regimes de força: dona Nenê enxerga no vizinho de apartamento um duplo do filho morto durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), cujo corpo foi entregue à família sem a língua e sem as mãos, "como Franco gostava de fazer". Em debate com o público na sessão de pré-estréia em Porto Alegre, o diretor do filme admitiu que esse tipo de contato parece mesmo inverossímil: jamais um guerrilheiro procurado pela polícia aceitaria o convite para jantar nas proximidades. Mas ao mesmo tempo essa cena fantástica foi baseada em fatos reais, vivenciados pelo líder da ALN Carlos Eugênio Paz, que numa tarde de clandestinidade dispôs-se a acompanhar uma vizinha idosa numa dança de salão. Vizinha que por fim o salvou da repressão, apontando-o como sobrinho enquanto Carlos fugia do esconderijo armado até os dentes.

Imagens da delicadeza, enfim, recuperadas pela ficção em meio a um turbilhão de selvageria. São da personagem Rosa as raras frases cômicas (a lembrança de que o pai comunista teve "carreira de preso", a certeza de que Deus não estaria vendo nada porque ele não existe) e também uma das cenas em que a tensão do medo explode feito bomba. Rosa atuava nas sombras, militante disfarçada de balconista, e a revista a que ela é submetida no ônibus embala novamente em silêncio o pânico dos milhares de brasileiros solidários à resistência armada que precisavam morrer um pouco na hora de mostrar a carteira de identidade diante da pressão sutil de uma metralhadora.

"Tem dias em que a gente se sente/ como quem partiu ou morreu", diz a canção "Roda viva", de Chico Buarque, compositor presente em outras duas faixas da trilha, "Rosa dos Ventos" e "Construção", esta já no finalzinho do filme, anunciando os últimos movimentos de quem insiste em manter-se vivo ainda uma vez. Na primeira década do século XXI as lutas políticas são outras, incrivelmente complexas e, até pelas dificuldades de compreensão, esses tais dias em que a gente se sente como quem partiu ou morreu vem se multiplicando. Morremos um pouco em 2002, morremos demais em 2004, em Porto Alegre, ambas as derrotas diante de adversários armados de um inacreditável "nada", um vazio completo, um oco monumental em termos de discurso político. Entre os entusiastas do Fórum Social Mundial, não deixa de ser uma morte diária ouvir a cada noite nos telejornais o número variável, em quantidades de dezenas, dos civis eliminados no Iraque, depois de tantas passeatas e ações e livros e shows e negociações inúteis contra a guerra e contra a reeleição de George Bush. Em "Cabra-cega", Tiago enlouquece pela paranóia em distinguir aliados de inimigos e em grande parte pela sensação de impotência, e talvez sejam essas as impressões mais angustiantes num filme que não pretende ser de terror.



por Cris Gutkoski

Jornalista e mestranda em Teoria da Literatura
pelo Pós-graduação em Letras da PUCRS

 
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