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Paredes de Segredos

Saio de baixo do edredon, louco por um vinho bom para espantar o frio que corre solto na noite invernal deste Porto Alegre. Falo baixo, bem mansinho, com meus botões o segredo que as paredes deste velho casarão-século-passado ainda não sabem. Se é que não sabem. Com mais de cem anos de existência pode já não ser impossível ao menos suspeitar.

Da janela encarquilhada olho por cima as calçadas, telhados e árvores sem despertar muita atenção. Está comigo o segredo, e com os botões, bem guardado. Lá em baixo, gentes. A animação corrente que não baixa. Zum-zum, risadas, olhares e beijos. A cidade é testemunha de seus seres. Habitantes, passantes, perdidos, espertos, malucos, espécimes vivos, raros e comuns dos dias e noites em alta da Cidade Baixa. Vejo-os e me percebo mais um. A cidade que me vê nem pensa, já sabe. Já viveu este momento, e o vive intensamente na freqüência natural em que vê tantos seres circulando em si quase sempre como um momento novo. Tudo é novo. Tudo muda, mesmo parecendo igual.

Resisto a essa vontade de saltar, tanto quanto a vontade de tornar o segredo novidade. Os botões apertam o casacão, cúmplices ainda mais, enquanto rangem os degraus arredondados de décadas a assistir subires e desceres. A porta está logo ali, imensa, nobre e tanto que dirijo-me com o respeito devido aos dourados anos de antes. Sabe-se lá quantos por ela cruzaram desde quando ainda reluziam as ferragens de bronze, quantos rostos passantes refletiram-se na cera lustrosa enquanto olhava tranqüila para a calçada. Saio. A noite é boa, na rua o frio me acolhe. Vinho.

Segredos que resistem eternos, mistérios que tornaram-se mitos, signos por vezes indecifráveis que guardam as paredes silenciosas e atentas dos casarões altos da Cidade Baixa sobrevivem ao tempo, aos modos, à moda e ao estranho ritmo do crescimento desta urbe. Altos edifícios, montes de concreto, convivem blocos modernos e modernosos circundando o casario quase em desatino. Há vida nas ruas desta cidade dentro de uma cidade. É pura e intensa. Rica em sinais, beira o rio que é lago. Única. Território mundial consagrado definitivamente nos bares, antros e botecos seus. Corpo de tudo que é possível ainda neste mundo, ainda neste tempo, ainda nesta noite. Ardente cidadela.

Tanta gente! Bebo o vinho, recupero pensamentos, retomo o começo e me falta um botão. Um segredo vaga perdido. São fiéis os botões, mas se perdem facilmente. Os casarões que ainda resistem é que sabem um segredo guardar. Ainda lembro dos que sepultaram em escombros os seus, e jamais os saberemos. Escorrega o edredon rumo ao chão, é ela quem se descobre e sente o frio pelo calcanhar. Perdido, solitário sem casa, resta ao botão lhe cochichar: "quando te deixo ao anoitecer por um vinho, uma parte de mim não sai da tua casa, do teu corpo. Uma parte que fica assim solta em ti, solta de mim, comigo e contigo passeia.".



por Iran Rosa

artista gráfico,
arquiteto e urbanista
 
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