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O lado A da Cidade B

Frases de efeito, nos lançamento de empreendimentos imobiliários costumam traçar paralelos entre Porto Alegre e outros lugares do mundo. Sempre lugares chics, é claro. A Carlos Gomes é a "nossa Avenida Paulista", os Moinhos de Vento, a versão gaudéria dos Jardins. Parece que a gente tem uma vontade insuportável de ser São Paulo. Ou Buenos Aires, Nova Iorque; quem sabe Paris? Afinal, Palermo, Chelsea e o Marais ainda estão dando sopa pra mais algumas potenciais comparações.

Eu prefiro acreditar que os lugares que tem caráter, são únicos. Podem ter primos em segundo grau, mas são únicos. O caráter dos lugares, assim como o das pessoas , é um distintivo, uma marca, de nascença ou adquirida, capaz desta coisa incrível que é criar identidade. E é isso o que atrai ou expulsa as pessoas de um lugar:o reconhecimento.

Nesses tempos bicudos, caráter é coisa rara, identidade é coisa cara. Trans é pop, bagaceiro vira cult e o Haiti não é aqui, como diria aquele mano baiano. Nesse contexto eclético que trasformou o mundo em globo, que se arrasta e se aperfeiçoa há mais de 200 anos, é difícil a gente reconhecer lugares que sejam parecidos apenas com eles mesmos. Talvez São José dos Ausentes, que tem a viração...mas quanto mais urbano, mais igual a todasascapitais.

Eu, mais por repetição e proximidade do que por esperteza, reconheço as especificidades de Porto Alegre, que vão além da lomba, do churrasquinho de domingo, da pechada e do kit chimarrão. Reconheço a cidade com uma cara própria, que a gente consegue apresentar a um forasteiro. Tem topografia, lago-rio, vento, umidade, mica, muro, escadarias, palmeiras imperiais. Luz de outono. Pedra portuguesa. Ruas, praças, parques. Bairros. Bairros. Bairros.

Sem querer ser bairrista, beeeeeeeem capaaaaaaz, digo que a Cidade Baixa não é apenas mais um destes bairros. Algumas partes não relatam a complexidade do todo. São as mono-partes.
Os bairros residenciais, exclusivamente. Ou comerciais, exclusivamente. Ou caros, exclusivamente. Ou pobres, exclusivamente. Nada mais inclusivo do que a Cidade Baixa, com seu caráter complexo e contráditório, como diria um arquiteto bem famoso, de algumas décadas atrás.

Em que outro lugar do mundo Patrícias lindas e loiras, empinam suas polares, descaradamente? É quase divino! Filme chinês, vinhozinho, papo cabeça, aço inox ; clube dos coroas; música eletrônica. Antiquário que nasce bar e bar que vira antiguidade. Bairro que tem partido e time! Time? Que time? Pão dos pobres, cacetinho, mãe Oxum. Agora tem até edifício neoclássico!
Enfim, nada é perfeito, graças à Deus!



por Marta Peixoto

Arquiteta

Professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo
da UFRGS e da Uniritter
 
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