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Mais uma vez, uma questão de educação

O Brasil é um país de gente mal educada. Pior do que não saber comer com classe, é a falta de formação ética, de informação e, até, de falar português decentemente e conhecer Cândido Portinari.

Ética é um conceito. Para entendê-lo e, ainda mais, praticá-lo, é necessário capacidade de abstração. Diferenciar o calor do frio é uma experiência empírica; basta ter um corpo funcionando normalmente; já para entender o antagonismo entre o bem e o mal, é indispensável ter alguma educação.

Quanto a falar nossa própria língua, além da mera capacidade de se fazer entender, revela alguém habituado a ler e atento ao ouvir; revela respeito, enfim. Conhecer Cândido Portinari, e pelo nome, é coisa para quem frequentou uma escola ou teve alguém próximo que tenha lhe aberto os olhos para ver, de fato. O que nós temos é uma população mal formada por famílias e escolas empobrecidas, que inviabilizam qualquer possibilidade desta relação enriquecedora, que é a educação. Como consequência, inclusive, perdemos a copa do mundo.

Os jogadores são sujeitos saídos da pobreza, em sua esmagadora maioria, vivendo todas as maravilhas eletrônicas do enriquecimento lícito, sem um pingo de educação. Os técnico são ex-jogadores, ou algo muito parecido.

Para entender o conceito "equipe", que é produto de muita força de vontade e responsabilidade, é necessário ter educação. Para ter sucesso com alguma humildade, ou pelo menos entendimento de suas fraquezas, é preciso ter educação. Para amar uma noção que é abstrata, como nação, é necessário ter educação. Ou, como diria alguém da crônica esportiva, possivelmente um jornalista formado, para entender a necessidade de um esquema tático, é preciso ter humildade. E para ter humildade, com significado diferente de submissão ou passividade, como está no dicionário, é preciso ter raciocínio abstrato. Para ter raciocínio abstrato, é preciso ter educação.

É verdade que gerações passadas, dos mesmos brasileiros, muito menos ricos ou conhecidos, ganharam copas, há cinquenta anos atrás.
Mas é impressionante o aumento da pobreza da quase extinta classe média, o agravamento da miséria, que cria complicadas situações familiares, e o desaparecimento da educação pública, nestes mesmos cinquenta anos.

Perdemos bem mais do que o hexa. Mas deu a lógica. Pena que só entenderá quem tem alguma educação.



por Marta Peixoto

Arquiteta

Professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo
da UFRGS e da Uniritter
Num domingo de ressaca patriótica, 12h57m.
 
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