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Nós que nos amávamos tanto
Atenção, um aviso inicial: se você tiver menos de 35 anos, talvez não reconheça alguns dos locais mencionados a seguir. É que houve um tempo em que os cinemas não ficavam dentro de um shopping. Você saía da sala e já estava na rua. Bom, você foi avisado.
Não, não foi no meio do salão, nem foi lá por 76. Foi dez anos depois... Nossos verdes anos, ou a passagem deles para a vida adulta, foram vividos em plena Cidade Baixa. Acho mesmo, talvez exagerando um pouco, que a gente também deu nossa contribuição para ajudar a deslocar do Bom Fim para a Cidade Baixa a cena mais agitada e interessante das noites porto-alegrenses. Mas isso já é outra história...
Se você entrou num cinema em Porto Alegre, entre meados de 86 até 89, especialmente nos primeiros dias do mês, deve ter se encontrado em alguma dessas vezes com o "Última Cena". Flashback muito rápido: o "Última Cena" era um jornal sobre cinema distribuído nas salas da cidade e feito por quatro então jovens saídos da Famecos, na PUC. Ajudou a registrar um período efervescente da produção gaúcha, tempos da afirmação de curtas como "O dia em que Dorival encarou a guarda" e longas como "O mentiroso".
De volta aos dias de hoje, o que é mesmo que o "Última Cena" tem a ver com a Cidade Baixa?
Bom, eu, como um dos quatro então jovens daquela época, posso garantir que o bairro foi decisivo na realização daquele projeto. Só mais um flashback muito rápido... 1985: caminhando pela Perimetral até a Osvaldo, provavelmente a caminho do Baltimore ou do Bristol, dois amigos, prestes a concluir o curso de Comunicação, vão divagando. A Cristina me fala "e se a gente fizesse um jornal de cinema?".
Parecia uma decorrência natural de uma coisa que a gente - eu, a Cristina, o Eduardo, a Cylene, outros amigos - fazia muito: falar e polemizar sobre cinema, fosse em noites do Pedrini ou em almoços e jantas (ala minutas...) no Beco, ali no finzinho ou comecinho da Lima e Silva. E como se fazia isso! Depois de algum ciclo do Bristol, sentado na escada mesmo, ou na saída de uma das meia-noites do ABC. E o que é aquela cena da Nastassja Kinski no Paris, Texas, hein? Bah, prefiro ela na Marca da Pantera. Afinal, o Mickey Rourke gostava mesmo da Kim Basinger naquelas 9 ½ semanas? Zelig é o melhor trabalho do Woody Allen! Sou mais A Rosa Púrpura.... Foi, aliás, numa sessão desse filme, em pleno ABC, que o Eduardo gargalhava, para espanto nosso, que não entendíamos onde ele via tanta graça assim. Enquanto isso, a Cylene pedia pra gente fazer silêncio. Ah, e uma barata passava bem na nossa frente, na primeira fila.
Certamente não por acaso, as pré-estréias que a gente promoveu depois aconteceram no Avenida, que mais tarde virou bingo, ali... na Cidade Baixa. E a última sede do Última Cena foi na Lopo Gonçalves. É, neste bairro mesmo...
Quase vinte anos depois, essa memória afetiva me ocorre a partir do pedido de escrever algo sobre a Cidade Baixa. Pensei rápido e me dei conta - algo que na época não tínhamos noção - de como o bairro foi de alguma forma emblemático de uma transformação que a gente vive. Amadurecimento, rito de passagem, fim da inocência... chame como quiser.
Bom, e se às vezes a vida da gente pode dar um filme, mesmo que nem sempre tão interessante para todos, acho que a nossa poderia, sim, valer um registro, pelo menos desse período. Talvez trouxesse um final doce-amargo, normal quando se remexem lembranças. E se tivesse que dar um título pra esse momento, correndo o risco de parecer piegas, não consigo pensar em outro que não o mesmo que usei para essa pequena crônica.
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